quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

- " Portugal e Japão "

Uma relação entre povos desde a época das Grandes Navegações


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–– Portugal e Japão: uma desconhecida relação
fruto da audácia lusa ––
Sabrina Aïd,
da Agência EFE (Espanha)
19 de novembro de 2014
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Apesar de ambos os países estarem em pontos distantes do planeta, Portugal e Japão conservam uma relação peculiar e pouco conhecida, que começou há 400 anos, graças à ousadia dos navegadores portugueses.
“O Japão foi o país asiático que sofreu o maior impacto e as maiores transformações vindas da expansão portuguesa”, disse o historiador e professor universitário João Oliveira e Costa, um dos autores do livro História da Expansão e do Império Português, publicado recentemente pela editora Esfera dos Livros.
A audácia dos navegadores portugueses no “descobrimento” do Brasil ou do caminho marítimo para a Índia já inspirou epopeias como Os Lusíadas, mas o impacto das naus portuguesas no remoto Japão é um capítulo pouco conhecido.
Iniciado em 1415 com a conquista de Ceuta [na África do Norte], o Império Colonial Português estendeu-se na África, na Ásia e na América do Sul, e ainda apenas três décadas mais tarde ocorreu o primeiro contacto com as ilhas nipónicas.
–– Semi-isolamento e primeiro contacto com europeus ––
Os japoneses conheceram um povo europeu pela primeira vez quando um grupo de comerciantes portugueses desembarcou em seu território em 1543, e desde então, desenvolveu-se uma intensa interação económica, assim como social e religiosa.
A escopeta portuguesa foi um dos objetos que causou maior impacto ao povo local japonês, que até então desconhecia as armas de fogo e lutava nas guerras com flechas e outras armas brancas.
“O Japão era um país semi-isolado até a chegada dos portugueses. A relação luso-nipónica contribuiu para uma atualização significativa dos conhecimentos da civilização japonesa”, disse Oliveira e Costa, cuja obra [sobre o Império Português] reúne de forma inédita desde o início da expansão marítima portuguesa (1415) até a independência [transferência da soberania à China] da colônia chinesa de Macau (1999).
–– Palavras portuguesas e arte namban ––
Além das armas de fogo, os portugueses introduziram várias palavras na língua japonesa durante o período conhecido como “Comércio Namban”.
Assim, os japoneses adotaram vocábulos da Língua Portuguesa como pan (pão), tabako (tabaco), botan (botão) e kirishitan (cristão).
“A chegada das naus portuguesas, com os seus trajes, estranhos para eles, com animais nunca vistos no Japão [galinhas, patos ou coelhos], com tripulantes negros, com costumes diferentes, foi registada pelos artistas japonenses”, disse o docente da Universidade Nova de Lisboa.
Outro reflexo da interação entre europeus e japoneses foi a arte namban, normalmente observada nos biombos japoneses, nos quais foram retratados os contatos comerciais entre as duas civilizações, à maneira de um álbum de imagens.
“Há vários museus japoneses com peças associadas à cultura namban, principalmente as de caráter religioso, como pinturas, bandeiras e armas dos cristãos”, relatou o historiador, que destacou os móveis lacados que evocam o Ocidente.
A cultura namban deixou a sua marca não só nas artes visuais, mas também nos rituais religiosos, nas artes interpretativas e na cultura científica de ambas as civilizações.
–– “Os portugueses mudaram a história do Japão” ––
Outras marcas relevantes perderam-se devido aos conflitos políticos e religiosos, que levaram inclusive à perseguição de cristãos no Japão, considerados um perigo para o arquipélago por ser uma bandeira colonizadora.
“Tudo o que estava relacionado com os portugueses foi destruído. Todas as igrejas foram destruídas no século XVII”, constata Oliveira e Costa.
Apesar dessas tensões, a prova viva da relação centenária que uniu Japão e Portugal durante quase um século está em Macau, que se tornou uma importante porta para o comércio entre China, Europa e Japão.
A pequena Macau, transferida para a administração de Pequim em 1999, é um ponto onde convergem a identidade portuguesa e chinesa, uma ponte entre a cultura ocidental e oriental.
“Os portugueses mudaram a história do Japão, mas este manteve a sua própria civilização”, lembrou Oliveira e Costa, que explicou a razão pela qual este episódio da história acabou por ter menos peso que a colonização portuguesa do Brasil em 1500.
Diante de uma civilização de tecnologia escassa, especialmente em relação às armas, os portugueses impuseram sua força diante dos aborígenes do Brasil.
“Embora, no caso do Japão, que nunca passou pela cabeça dos portugueses colonizá-los”, disse Oliveira e Costa para concluir a chave da questão, “toda a gente sabia que o país dos samurais era impossível de se conquistar”.  :::
(Tradução de Ronaldo Santos Soares)
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Com base em
AÏD, Sabrina. Portugal y Japón, una desconocida relación fruto de la audacia lusa.
Extraído da Agência EFE (Espanha)
Pu

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

- A CONCRETIZAÇÃO DO “MAPA COR DE ROSA”

ANGOLA E MOÇAMBIQUE PODEM CONCRETIZAR O “MAPA COR DE ROSA”



Angola e Moçambique, no quadro da CPLP, reúnem todas as condições para tornar o “mapa cor de rosa” uma realidade. Bastaria que, usando a sua influência na zona e a dependência da Zâmbia dos portos moçambicanos e angolanos, tivessem vontade de o concretizar.

Estou convencido que o projeto não seria difícil de concretizar, uma vez que a Zâmbia já é um elemento de ligação entre o Caminho de Ferro de Benguela e o Caminho de Ferro da Beira.     O estreitamento das relações comerciais, aproveitando esta ligação, seria forte alavanca para o desenvolvimento daquela zona e, embora para alcançar este objetivo seja suficiente a adesão da Zâmbia, a solução ideal seria incluir o Zimbabue e o Malaui.

- MAPA " COR DE ROSA"


Foi o nome que foi dado a um mapa desenhado em 1886, que sinalizava o território entre

 Angola e Moçambique, sobre o qual Portugal queria exercer soberania, com vista a 

estabelecer ligação entre o Oceano Atlântico e o Oceano Índico. 

A pretensão de Portugal fez 
despertar nos britânicos o desejo de criar uma ligação 

ininterrupta entre o Egito e a Colónia do Cabo, tornando o choque inevitável. 

A disputa culminou, em 1890, no ultimato britânico 
que 
Portugal, inteligentemente, aceitou.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

- " E se o Brasil tivesse sido colonizado pela Holanda ? "



Autoria de Túlio Vilela ( formado em história pela USP, é professor da rede pública do estado de São Paulo e um dos autores do livro Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula (Editora Contexto).

Eis uma pergunta que já passou pela cabeça de muita gente. No entanto, para a História não existe o "se", mas apenas o que aconteceu. Para os historiadores, não existe sentido em especular a respeito de "realidades alternativas" ou de "universos paralelos", eles preferem deixar essa tarefa para os escritores de ficção científica.
Em todo caso, esse tipo de pergunta demonstra que existe um interesse popular pelo tema da presença holandesa no Brasil. Afinal, se um episódio do passado é capaz de estimular a imaginação das pessoas, é porque esse episódio ainda desperta paixões no presente.


Para sairmos do campo da especulação e partirmos para o da história propriamente dita, vamos reformular a pergunta : "As colônias holandesas se tornaram países mais desenvolvidos que o Brasil, uma ex-colônia portuguesa?" A resposta para essa pergunta será negativa e este artigo mostrará elementos que nos permitem chegar a esta conclusão.

Colonizadores e colonizados
Em primeiro lugar, devemos ter consciência de que toda colonização é uma relação de dominação, o que implica dominadores (colonizadores) e dominados (colonizados). Portanto, dizer que a colonização realizada por um país foi "melhor" do que a realizada por outro é sempre discutível. Afinal, foi "melhor" para quem? Do ponto de vista do colonizador ou do colonizado?

Para o colonizador, a colonização é um sucesso quando ele consegue explorar as riquezas da colônia e obter lucro com elas. O que é sucesso para o colonizador, pode ser tragédia para quem foi colonizado. Do ponto de vista de todos os povos que habitavam a América na época da chegada de Colombo, todos os colonizadores europeus (fossem eles portugueses, espanhóis, holandeses, ingleses ou franceses) foram de alguma foram nocivos, seja trazendo doenças, seja escravizando, seja destruindo as culturas indígenas.

Pernambuco sob domínio holandês
Muitos livros e documentários atuais sobre o período em que Pernambuco esteve sob domínio holandês (1630-1654) destacam as realizações de Maurício de Nassau, conde que governou o "Brasil holandês" durante sete anos, de 1637 a 1644. As realizações mais lembradas nesses livros e documentários são o fato de Nassau ter permitido a liberdade religiosa para católicos e judeus (apesar da oposição de alguns compatriotas seus, que eram de maioria protestante), as melhorias feitas na cidade Recife (construção de pontes, calçamento de ruas etc.) e de ter trazido artistas e cientistas da Europa para o Brasil, dentre os quais o pintor Frans Post, que retratou as paisagens locais, e o cientista Georg Marcgraf, que estudou a fauna e a flora brasileiras.

No entanto, apesar da importância do trabalho dessas medidas, desenvolver o urbanismo e estimular as artes e as ciências não eram os principais objetivos do governo holandês em Pernambuco. Os objetivos das autoridades holandesas que dominaram parte do Nordeste brasileiro eram controlar a produção e o comércio de açúcar, que, na época, era o principal produto brasileiro de exportação, e o
tráfico de escravos de origem africana no Atlântico Sul.

O lucrativo tráfico de escravos
Esse tráfico era extremamente lucrativo e também estava ligado ao açúcar, pois a mão de obra que trabalhava nos engenhos era formada por escravos. Ou seja, o que moveu a presença holandesa no Brasil foram interesses puramente comerciais. Prova disso é o fato de que as invasões holandesas foram organizadas por uma empresa particular, a Companhia das Índias Ocidentais. Essa empresa tinha a autorização e o apoio do governo da Holanda para atacar e saquear navios e colônias de países inimigos a fim de obter riquezas nos continentes americano e africano.

Vale lembrar que os holandeses atacaram o Brasil durante o período da União Ibérica
(1580 a 1640), quando o rei da Espanha herdou a coroa portuguesa. Isso aconteceu porque o rei dom Sebastião, que morreu em 1580, não deixou herdeiros, aproveitando-se disso, o rei da Espanha, Filipe 2º, que era primo de dom Sebastião, reivindicou o trono português. Assim, o Brasil, que era colônia de Portugal, esteve durante esse período sob o domínio da Espanha, que era rival da Holanda.

A Companhia das Índias Ocidentais também autorizava e apoiava o tráfico de escravos africanos. Esses escravos não eram trazidos apenas para o Brasil, mas também para o Caribe e para a então colônia inglesa da Virgínia, na América do Norte. Pernambuco era para os holandeses um entreposto para o comércio de escravos. Num relatório enviado para a Companhia das Índias Ocidentais, o próprio Maurício de Nassau afirmava que no Brasil nada podia se fazer sem escravos. Nesse mesmo relatório, Nassau recomendava que se aumentasse a importação de escravos. Por isso, o tráfico de escravos trazidos da África aumentou consideravelmente durante o domínio holandês em Pernambuco.

Holandeses no Suriname e na Indonésia
Após serem expulsos do Brasil pelas forças luso-brasileiras, os holandeses continuaram praticando o tráfico de escravos e explorando a utilização do trabalho escravo em engenhos produtores de açúcar. Desta vez, nas Antilhas. Por causa da concorrência com o açúcar produzido nas Antilhas, o preço do açúcar produzido no Nordeste brasileiro chegou a cair pela metade no período entre 1650 e 1700. No entanto, apesar dessa queda, o açúcar continuou sendo um dos principais produtos exportados pelo Brasil e a sua venda voltou a aumentar a partir da última década do século 18.

Como vimos, o domínio holandês no Brasil foi bem diferente da imagem romântica que se criou em torno dele. Uma imagem tão exagerada que, até hoje, é comum atribuir aos holandeses qualquer construção arquitetônica antiga que chame a atenção, mesmo que tenha sido construída após a volta do domínio português. Por fim, para aqueles que ainda persistem em acreditar que subdesenvolvimento é exclusividade das ex-colônias portuguesas, vale destacar que o Suriname, país que faz fronteira com o Brasil, e a Indonésia são dois exemplos de ex-colônias holandesas. E tanto o Suriname quanto a Indonésia são países sub-desenvolvidos e com graves problemas socioeconômicos.

sábado, 30 de agosto de 2014

-" Ilha das Flores, na Indonésia, portuguesa durante 350 anos "

Agora que a Indonésia pretende fazer parte da CPLP, será aconselhável que a conheçamos melhor, e principalmente a ilha das Flores que foi portuguesa até 1856, durante cerca de 350 anos, para que não se crie uma polémica idêntica à da Guiné Equatorial. 


No maior país muçulmano do mundo existe uma ilha católica onde ainda se reza em português“. 




Flores é uma ilha da Insulíndia, situada a leste da ilha Java, na Indonésia, tendo Timor a sudeste.

Foi possessão portuguesa durante os séculos XVI a XIX (cerca de 350 anos) tendo sido cedida aos holandeses em 1856,  juntamente com as restantes ilhas de Sonda.
Em Flores falam-se diversas línguas, sendo reconhecidas, pelo menos, seis línguas diferentes





O que resta do antigo Forte português

Os
 comerciantes e missionários Portugueses estabeleceram-se nesta ilha no século XVI, principalmente em Larantuka e Sikka. A sua influência ainda hoje é identificável no falar e na cultura dessas regiões. 




 Monumento a Jesús em Maumere, Flores
A população de Flores é católica na sua quase totalidade, consequência de em Larantuca ter sido fundada uma das primeiras missões abertas pelos dominicanos portugueses, em finais do século XVI.
Todos os anos é celebrada a Semana Santa, que mantém a terminologia portuguesa e muitos dos costumes específicos da celebração desta cerimónia em Portugal. Grande parte da população católica sabe ainda hoje rezar em português antigo, apesar de o falar correcto da língua portuguesa já se ter perdido na região. Muitas destas tradições são mantidas pela Confraria de Nossa Senhora do Rosário que ao longo de quatro séculos presiste, continuando a chamar-se Confreria Reinha Rosari.
Na Indonésia 89% dos cerca de 250 milhões de habitantes são muçulmanos. A ilha das Flores entre os cerca de um milhão de habitantes, 85% são católicos.

Palavras portuguesas na língua indonésia

Só umas poucas palavras entraram na língua indonésia.
Por exemplo:
bangku ‘banco’
bibliotek ‘biblioteca’
gereja ‘igreja’
jendela ‘janela’
kapela ‘capela’
katedral ‘catedral’
meja ‘mesa’
minggu ‘domingo’
paroki ‘paróquia’
pasear ‘passear’

Expressões portuguesas usadas na região de Larantuka e Maumere

Dias da semana (usados até hoje):
Segunda-fera, tersa-fera, kwarta-fera, kinta-fera, sesta-fera, sábadu, domingo.
Nomes próprios:
Da Silfa, Da Gomes, Joanes Ribéra, Pârera, Da Cuña, Da Lopez, Carvalo, De Rosari, De Ornai, Rita.
Relação familiar:
Tio/tia, cuñadu/cuñada, pa (pai), ma (mãe), nina (menina), siñu Da Gomes (senhorzinho Gomes, no sentido de pequeno ou de carinho), nina Da Gomes (senhorita Gomes, no mesmo sentido).
Catolicismo:
Prosesi (procissão), Reña Rosari (santa padroeira de Larantuka), Tuang Mâ (Nossa Senhora), Tuang Deo (Deus), San Domingu, San Juan, konféria (confraria), gereja (igreja), katedral, kapela, paroki, cruz, promesa, kristang (cristão), missa, paji (padre), tuang paji (teu padre, senhor padre).
Termos do dia-a-dia:
pasear, jandela, meja, bangku, kadéra, garfu, sâpátu, almari (armário), sem (sem), nyora (senhora), statua (estátua), berok (barco), minyoka (minhoca), redaku, sândál (sandália), ose (você), senyor (senhor: para pessoas que têm autoridade ou para os mais velhos), espada, kamija (camisa), mamonti (prato cheio, como um “monte”), tésta.

Na região de Larantuka, o grupo da Konféria sempre usa a língua portuguesa nas orações e no seu boletim.

domingo, 17 de agosto de 2014

-" Crioulos de base lexical portuguesa "

O crioulo surge pela necessidade de comunicação entre falantes de línguas diferentes num meio dominado por uma língua de prestígio.
Os linguistas não são unânimes quanto à classificação dos crioulos, dando-lhe, uns, a classificação de língua mas a maioria considera-os dialetos.
No estudo dos crioulos, a maior curiosidade é a quase inexistência de crioulos espanhóis. As línguas crioulas de base hispânica tiveram origem ou foram influenciadas por um crioulo português pré-existente. Mesmo em lugares onde a colonização portuguesa não se fez presente com grande alcance de dominação cultural, como em Palenque, na Colômbia, ainda hoje se fala um crioulo espanhol no qual se veem claras influências portuguesas.
O contacto da língua portuguesa com outras línguas da África, da Índia, da Ásia Oriental e das Américas, Central e do Sul, deu origem a vários crioulos de base lexical portuguesa.
 













sábado, 9 de agosto de 2014

- " Tecnologia digital para preservar os jornais portugueses do Havaí

WU, Nina. Endangered collection.
Extraído do jornal Honolu, Havaí, .Publicado em: 06 out. 2013.

No Havaí, Estado norte-americano situado em meio ao Oceano Pacífico, há uma comunidade lusófona e lusodescendente de cerca de 60 mil habitantes – 4,3% da população, de acordo com o Censo dos Estados Unidos da América.




No século XIX, quando havia o então Reino do Havaí, já estava instalada uma ativa comunidade portuguesa. Vindos dos Açores e da Madeira, eles levaram ao meio do Pacífico as malassadas, o pão doce parecido com as filhós, e o ukulele, instrumento musical de cordas semelhante ao cavaquinho. Duas manifestações culturais portuguesas vistas pelo mundo como genuinamente havaianas.
Essa comunidade portuguesa atravessou metade do planeta e chegou ali a publicar vários jornais com notícias em Língua Portuguesa.
No Havaí, há uma comunidade lusodescendente de cerca de 60 mil habitantes — 4,3% da população do Estado norte-americano, segundo o Censo dos EUA.
Por cinco centavos de dólar uma cópia, os leitores do jornal de Língua Portuguesa O Luso em novembro de 1915 poderiam encontrar histórias de primeira página sobre a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Mexicana sob as manchetes “Notícias da Guerra” e “Notícias do México”.

O semanário de quatro páginas teve a maior circulação dentre os jornais de Língua Portuguesa publicados no Havaí entre 1885 e 1927 e foi o de duração mais longa.
As únicas cópias originais conhecidas de O Luso e de outros oito jornais de Língua Portuguesa da época são parte de uma coleção da Sociedade Histórica do Havaí, alojada nos Arquivos e Sítios Históricos dos Lares Missionários do Havaí.
“É uma coleção rara, ameaçada de extinção”, disse Barbara Dunn, diretora administrativa e bibliotecária da Sociedade. “A informação é valiosa. É uma voz do final do século XIX que está à espera de ser descoberta.”

Como parte da iniciativa de digitalização mais recente desta Sociedade, os jornais serão incluídos no acervo dos Arquivos Luso-Americanos Ferreira-Mendes, da Universidade de Massachusetts em Dartmouth, que já oferece acesso público em linha na Internet de jornais dos Estados de Massachusetts e da Califórnia.O órgão dos arquivos em Dartmouth entrou em contacto com a Sociedade em junho de 2010 para iniciar o projeto, que ajudou a custear após descobrir a existência dos jornais do Havaí através de registos da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos [em Washington].
No final da primavera no Havaí [entre maio e junho de 2013], a Sociedade embarcou três volumes empacotados sob medida dos jornais — segurados e avaliados em cerca de 15 mil dólares — para a ArcaSearch, uma empresa do Estado de Minnesota especializada na digitalização de documentos antigos.A ArcaSearch recentemente embarcou de volta os jornais, e as suas páginas delicadas e amareladas foram embrulhadas em um papel à prova de ácidos e retornadas às prateleiras de conservação da Sociedade.De um ponto de vista histórico, Barbara Dunn disse que os jornais refletem o pensamento da comunidade portuguesa do Havaí de finais do século XIX e início do século XX e o que lhe era importante na época.
O primeiro português registado que veio para as ilhas, de acordo com algumas anotações históricas, foi John Elliot de Castro, que navegou para o Havaí em 1814 e eventualmente tornou-se um médico pessoal do rei Kamehameha I [que unificou o arquipélago e fundou o Reino do Havaí em 1810; o reino durou até 1893, quando foi anexado aos Estados Unidos].
Várias ondas de famílias portuguesas imigraram para o Havaí principalmente entre 1878 e 1913 (baseado nos registos náuticos) vindos dos arquipélagos da Madeira e dos Açores para trabalhar nas plantações de cana-de-açúcar.Eles também eram comerciantes, agricultores, paniolos [vaqueiros do Havaí] e líderes respeitados na comunidade.“É interessante saber quem eram os editores e as casas publicadoras”, disse Barbara Dunn.G. F. Affonso, do semanário da cidade de Hilo chamado A Seta, também trabalhou para o jornal The Honolulu Advertiser, e J. M. de Freitas, da Aurora Hawaiiana, era um membro do conselho eleitoral local.Além de anúncios, desenhados à mão, de empresas tanto de portugueses quanto de norte-americanos — de vinhos por A. Fernandes e de mobiliário pela C. E. Williams & Son —, os jornais ofereciam notícias locais, nacionais e internacionais, juntamente com anúncios de nascimentos, mortes e casamentos.Incluíam ainda cartas dos leitores, anúncios especiais e, por vezes, seleções da literatura portuguesa.
–– “Nove jornais para uma comunidade pequena e iletrada ––

A arquivista de bibliotecas dos Arquivos Ferreira-Mendes, Sónia Pacheco, diz que a meta da organização é digitalizar todos os jornais e revistas de Língua Portuguesa publicados nos Estados Unidos e torná-los disponíveis em linha na Internet.
É preferível escanear os originais em vez de microfilmá-los, disse; e para isso a descoberta dos jornais no Havaí foi estimulante.
1887


                                                                              1912
                                                                       


                                                                                   1917
                                                                           


1933
                                                                                                                                                      
Sónia Pacheco planeia ir ao Estado do Havaí no final do ano, quando os jornais já estiverem disponíveis em linha, para dar uma apresentação sobre como pesquisar nos arquivos. Enquanto o banco de dados será em inglês, os termos de pesquisa devem ser em Língua Portuguesa.
“Muitas pessoas estão familiarizadas com a história, mas não entendem o que está escrito nos exemplares, e o surpreendente é que lá foram nove títulos de jornais para uma comunidade pequena e, em sua maioria, iletrada”, disse. “Para os genealogistas, esta é uma oportunidade enorme. Para os historiadores sociais, isto abre um novo mundo.”
Como parte da primeira fase da digitalização, a Sociedade no ano passado trabalhou juntamente com a Biblioteca Hamilton, da Universidade do Havaí em Manoa, para postar os microfilmes dos jornais ao repositório digital eVols [da universidade havaiana], graças a uma contribuição do Fundo George Mason [de financiamento de projetos académicos do Estado do Havaí].




Doris Naumu é presidente da Sociedade Histórica Genealógica Portuguesa do Havaí.
O acesso aos jornais será de grande valor, de acordo com Doris Naumu, presidente da Sociedade Histórica Genealógica Portuguesa do Havaí, uma organização sem fins lucrativos gerida por voluntários e que ajuda as pessoas na pesquisa das árvores familiares.“Acho que toda a genealogia agora está melhor com a tecnologia moderna”, disse Doris Naumu.“Agora que estão a ensinar as pessoas como reconhecer traços de seus antepassados, é bom conhecer as histórias, bem como os nomes, porque eles ganham vida para você. É bom aprender tudo isto.”Doris Naumu descobriu, através de listas telefónicas velhas, que o ramo português de sua família gerenciou lojas de joalharia.
As metas da Sociedade Histórica do Havaí são preservar e tornar os jornais históricos mais acessíveis ao público. Com a digitalização dos jornais, o público não precisará manusear as páginas quebradiças, o que lhes causa maior deterioração. E colocando-as em linha na Internet, elas estarão disponíveis para mais pessoas ao redor do mundo.“Assim como a Sociedade Histórica do Havaí, queremos de facto tornar todos estes materiais disponíveis, com acesso livre e aberto”, disse Barbara Dunn.Para a Sociedade, o projeto é apenas o primeiro passo em direção aos esforços de digitalizar todo o seu acervo, que inclui 64 jornais publicados em inglês, havaiano e português.  :::
(Tradução de Ronaldo Santos Soares.)

domingo, 20 de julho de 2014

- " A ajuda que Portugal deu a Israel na guerra israelo-árabe de 1973 "

Esta é uma história que também faz parte da nossa História. É a lição que nos mostra que podemos sempre fazer a diferença. Se para uns somos insignificantes, para outros somos a esperança nos tempos mais negros

 
Autoria de Romeu Monteiro ( doutorando em engenharia eletrotécnica na Universidade de Aveiro e na Carnegie Mellon University)
12 Mar 2014  
A maior parte dos estrangeiros sabe pouco ou nada de Portugal. Somos vistos por muitos como um país irrelevante, que poderia deixar de existir sem causar um bocejo. Para muita gente num outro país, somos aqueles que ajudaram a que o seu país não deixasse de existir.
Avançámos quando outros mais fortes não ousaram e, com um pequeno gesto, evitámos guerras. É tempo que em Portugal se conte esta história que é nossa também.
Em Outubro de 1973, celebrava-se em Israel o dia mais sagrado do calendário judaico quando os exércitos da Síria e do Egipto lançaram uma invasão surpresa. Já em 1948 e 1967 haviam iniciado guerras contra Israel com o propósito declarado de aniquilar o país e “atirar os judeus ao mar”. Desta vez contavam com armamento e soldados adicionais da Jordânia, Iraque, Koweit, Arábia Saudita, Cuba, União Soviética e Coreia do Norte. Apesar da rápida mobilização das tropas israelitas, os tanques árabes iam ganhando terreno. Em Israel instalava-se o pânico. A primeira-ministra Golda Meir estava preparada para se deslocar a Washington e implorar aos EUA para reabastecerem Israel com armas, aviões e outro material bélico, tais as derrotas que as tropas israelitas estavam a sofrer. Apesar de os EUA permitirem o reabastecimento, havia um problema: os países europeus recusavam-se a autorizar os aviões americanos a usar as suas bases e espaços aéreos na rota entre a América e Israel. Sabiam que seriam punidos pelos países árabes por estarem dependentes do seu petróleo.
Ao ficar a par desta situação, o Governador dos Açores telefona para Washington e disponibiliza a base das Lajes na Ilha Terceira.
Pouco tempo depois, começa a operação Nickel Grass e a pequena base passa a operar dia e noite, albergando milhares de pessoas em abrigos improvisados. Os primeiros aviões começam a aterrar na Terceira, e daí seguem para Telavive. Em Israel, espera-se e desespera-se. Até que, finalmente, a ajuda começa a chegar a partir do céu: são os aviões que vêm de Portugal. Um, depois outro, e mais, sempre a chegar.
Depois das pesadas derrotas iniciais, os israelitas dão a volta à guerra e recuperam o território que tinham perdido até aí. Pouco depois, acorda-se o cessar-fogo. Após a guerra, o Egipto é forçado a reconhecer que não é capaz de destruir Israel ou de atingir os seus propósitos através da guerra. Assim, em 1978, assina um acordo em que recebe a península do Sinai em troca da paz, um acordo que se mantém até hoje. O Egipto torna-se o primeiro e maior país árabe a reconhecer Israel e a estabelecer relações diplomáticas e comerciais com este, abrindo a porta a outros países árabes que viriam a fazer o mesmo.
Depois de 1973 Israel não voltou a ser invadido. Ficou nos habitantes do país um respeito especial pela atitude de Portugal num dos momentos mais traumáticos da sua História, quando o resto da Europa os havia abandonado.
Conheci esta história através de um israelita que era soldado em 1973 e assistiu ao alívio de ver chegar os aviões vindos de Portugal. Aviões carregados de esperança e de futuro para uma nação pequena e jovem. Os judeus religiosos acreditam numa passagem da Bíblia que diz que Deus abençoará aqueles que abençoam Israel. Coincidência ou não, a verdade é que seis meses depois seria Portugal a conhecer a liberdade e a esperança num futuro melhor e livre de guerras.

Esta é uma história que também faz parte da nossa História. É a lição que nos mostra que podemos sempre fazer a diferença. Se para uns somos insignificantes, para outros somos a esperança nos tempos mais negros. Ontem salvámos um país. Está nas nossas mãos o que faremos amanhã.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

-" Portugal ganhou a "copa"

Uma perspectiva inteligente da actuação portuguesa no Brasil, em tempos de “Copa”. Vale a pena ler.



Por Norma Couri em 24/06/2014 

Carlos Drummond já dizia que não existe consolo na perda, o importante é ganhar. E o empate com os Estados Unidos no último minuto do jogo de domingo (22/6) não animou Portugal, que precisa vencer Gana na quinta-feira (26), e torcer para os Estados Unidos não empatar com a Alemanha – algoz dos portugueses com placar de 4×0. semana passada. Mas como tudo depende do ponto de vista, Portugal deve exultar pelas conquistas desta Copa no Brasil. Onde mesmo? Nos palcos, nas telas, nos livros, na arte e na imprensa que nunca antes na história deste país abriu tanto espaço e prestígio para a antiga Corte com quem travamos há cinco séculos uma relação de amor e… não ódio, gozação. Sem estreitar o oceano que nos separa.

Pelo menos sem deixar Portugal se tornar um imenso Brasil aqui dentro, como Chico Buarque pretendia ao cantar “Fado Tropical”. Ou como José Saramago torcia para que Portugal se deslocasse do mapa europeu e se unisse, num continente único, ao Brasil e à África (Jangada de Pedra,Companhia das Letras).
O que se ouviu na homenagem ao Dia de Portugal (10 de junho, comemorado dia 13) na sala de concertos mais luxuosa da América Latina, a Sala São Paulo, foi um Antonio Zambujo ecoar com acústica que atravessa séculos “ai esta terra ainda vai cumprir seu ideal/ ainda vai tornar-se um imenso Portugal”. Eram 1.500 pessoas, 100 ficaram na porta, a maioria brasileira, cantando junto com a última descoberta musical do país, Antonio Zambujo, o preferido de Caetano Veloso. Com quatro CDs no Brasil – “Outro Sentido”, “Guia”, “Quinto”, “O Mesmo Fado” –, desde Amália Rodrigues um músico português não fazia tanto sucesso como este alentejano de 38 anos que faz reviravoltas rítmicas até em Lupicínio Rodrigues e virou xodó nas nossas praias. A plateia delirou. “Foi fantástico, não quero mais ir embora, quero morar aqui, neste lugar, nesta casa”, respondeu o músico que, quando menino em Beja, costumava tocar com talheres de madeira na falta de instrumentos próprios, não podia viver sem música.
Outros fantásticos cantores, compositores, instrumentistas passaram e passam por aqui: Sergio Godinho, Vitorino, o conjunto à capela Tetvocal, Eugenia Mello e Castro. Mas só nesta Copa do Mundo as fronteiras culturais ficaram escancaradas mesmo quando, três dias depois do show de Zambujo, o Brasil amargou a apatia dos portugueses na partida contra os alemães que há muito “jantam” a Europa no tabuleiro econômico.
Gol de placa
Portugal entrou para valer. Saramago ainda não conseguiu modificar o mapa do mundo, mas seu romance O HomemDuplicado está nos cinemas numa adaptação do canadense Denis Villeneuve e figura entre os melhores em cartaz, disputando plateia com o campeonato mundial. Manoel de Oliveira sempre foi cultuado, mas em círculos cinéfilos. José Fonseca e Costa já nos brindou com excelentes filmes como A Mulher do Próximo, com Fernanda Torres. Miguel Gomes começou a brilhar há dois anos no Brasil com Tabu, homenagem à obra de Murnau (1931). E Maria de Medeiros só agora emplaca na ex-colônia como atriz e diretora em filmes e peças, inclusive apresentando o show de Zambujo.
No sábado (21/6), um dia antes da partida contra os Estados Unidos, a imprensa brasileira abriu espaço para o livro Jogada Ilegal (Gryphus), do jornalista português Luis Aguilar, expondo os escândalos que cercam a cúpula do futebol (“Prosa e Verso”, O Globo, 21/6/2014, ver aqui). O mesmo jornal apresentou o perfil saboroso da poeta portuguesa nômade, Matilde Campilho, autora de Jóquei, que conquistou fãs como Chacal (“Matilde é um caso único de taquigrafia poética”). E no mesmo dia o Estado de S.Paulo reservou página inteira para a obra do escritor convidado para a FLIP, Almeida Faria. A Paixão (Cosac Naify) narra a agonia do regime de Salazar que dirigiu o destino de Portugal por mais de 40 anos.
Os azulejos da artista Manuela Pimentel, redesenhados sobre camadas de grafite, vão ser expostos no Rio de Janeiro em sua coleção “Murmúrios de Muros”, agora no Instituto Portoghese di Sant’Antonio em Roma – é o que nos informa O Globo em página colorida. Está em exposição no consulado português de São Paulo a obra de 60 anos do artista luso-brasileiro Fernando Lemos, “Desenho, Só Desenho – a Sós”. Isso para citar alguns.
Foi a surpresa da Copa, depois de ver nos alemães a alegria e os passos de “Lepo Lepo” que esperávamos dos portugueses, o que mereceu dos cariocas a piada “os brutos também amam”. Mas se houve decepção com o jogador mais rico do mundo, Cristiano Ronaldo – fortuna avaliada em R$ 450 milhões, salário anual líquido de R$ 51,7 milhões no Real Madri –, Portugal, o país, conquistou aqui a estrela da sorte.
Como lembrou Roberto Pompeu na última página da edição corrente de Veja, no artigo “Imagina na Copa”, duas Copas atrás Portugal tinha um jogador que se chamava Luis Boa Morte, e estava longe de inspirar bom agouro. Agora, do goleiro Rui Patrício ao meio campo João Moutinho, os nomes lusitanos nos conduzem aos romances portugueses do século 19. Um deles, Fábio Coentrão – sugere Pompeu – até podia ser um cunhado do padre Amaro.
Isso, sim, é uma vitória nunca alcançada, apesar de todos os esforços econômicos e políticos ao longo dos séculos. Não é que o golaço foi acontecer nesta Copa, pela lateral, sem bater na trave, distante das arenas e quando ninguém esperava? 
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Norma Couri é jornalista